Por décadas, as cidades brasileiras foram projetadas para os carros. Avenidas largas, viadutos, estacionamentos — a infraestrutura urbana foi construída em torno do automóvel, deixando pouco espaço para quem prefere caminhar, pedalar ou simplesmente estar na rua. O resultado foi cidades hostis para os pedestres, com calçadas precárias, cruzamentos perigosos e poucos espaços públicos de qualidade.

Mas algo está mudando. Em várias cidades brasileiras, projetos de urbanismo tático, revitalização de espaços públicos e expansão de ciclovias estão transformando, aos poucos, a relação das pessoas com o espaço urbano. São Paulo, Curitiba, Fortaleza e Recife têm projetos que estão sendo estudados como referências internacionais.

O urbanismo tático que transforma ruas

O urbanismo tático é uma abordagem que usa intervenções temporárias e de baixo custo para testar novas formas de usar o espaço urbano. Uma rua de tráfego intenso pode ser temporariamente fechada para carros em um fim de semana para ver como as pessoas usam o espaço. Uma calçada pode receber mesas e cadeiras para criar um café ao ar livre improvisado. Um estacionamento pode virar uma praça por um dia.

São Paulo tem o programa "Ruas Abertas", que fecha ruas para carros aos domingos e transforma trechos da Avenida Paulista e de outras vias em espaços de lazer, cultura e convivência. O programa atrai centenas de milhares de pessoas por semana e mostrou que existe uma demanda enorme por espaços públicos de qualidade — uma demanda que a cidade não estava atendendo.

"O carro tomou as cidades brasileiras. Mas as pessoas não querem viver em estacionamentos — querem viver em cidades. O urbanismo tático é uma forma de mostrar isso, de forma concreta e reversível." — Arq. Raquel Rolnik, professora da FAU-USP

Ciclovias e mobilidade ativa

O Brasil tem expandido sua rede de ciclovias de forma acelerada nos últimos anos. São Paulo passou de 400 km de ciclovias em 2013 para mais de 1.200 km em 2025. Fortaleza tem uma das maiores redes de ciclovias per capita do Brasil. E cidades menores, como Joinville e Maringá, têm se destacado pela qualidade de sua infraestrutura cicloviária.

A pandemia acelerou essa tendência. Com o medo do transporte público lotado, muitos brasileiros descobriram a bicicleta como meio de transporte. O número de ciclistas nas grandes cidades aumentou significativamente entre 2020 e 2022, e parte desse aumento se manteve mesmo com o fim das restrições.

Os desafios que persistem

Apesar dos avanços, as cidades brasileiras ainda têm muito a melhorar. A qualidade das calçadas é um problema crônico — irregulares, estreitas, com obstáculos e sem acessibilidade para pessoas com deficiência. O transporte público, em muitas cidades, ainda é lento, lotado e pouco confiável. E a violência urbana limita o uso dos espaços públicos, especialmente à noite.

Mas a direção está certa. Cidades que investem em espaços públicos de qualidade, em mobilidade ativa e em infraestrutura para pedestres são cidades mais saudáveis, mais sustentáveis e mais agradáveis para viver. E os brasileiros, que sempre foram um povo de rua, estão mostrando que querem suas cidades de volta.