Larissa tem 24 anos, formou-se em Administração pela USP e recusou três ofertas de emprego em grandes empresas nos últimos seis meses. Não porque as propostas fossem ruins financeiramente — eram razoáveis. Mas porque nenhuma delas oferecia o que ela considera inegociável: flexibilidade de horário, trabalho remoto pelo menos três dias por semana e uma cultura organizacional que não a faça sentir que está trocando sua vida por um salário.

"Minha mãe me diz que sou exigente demais. Mas eu vi ela trabalhar 30 anos em uma empresa que a demitiu por e-mail. Não quero isso para mim", diz Larissa. Ela não é uma exceção. Ela é a regra de uma geração que chegou ao mercado de trabalho com expectativas que as gerações anteriores nunca tiveram — ou nunca se permitiram ter.

O que a geração Z quer do trabalho

Uma pesquisa da consultoria Deloitte com 22.000 jovens em 44 países — incluindo o Brasil — mostrou que os membros da geração Z têm prioridades claras quando se trata de trabalho. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional é o fator mais importante na escolha de um emprego, citado por 77% dos entrevistados brasileiros. Propósito e impacto positivo vêm em segundo lugar. Salário aparece em terceiro.

Isso não significa que a geração Z não se importa com dinheiro — especialmente em um país com as desigualdades do Brasil. Mas significa que o salário, por si só, não é suficiente para atrair e reter esses jovens. Eles querem saber o que a empresa faz com o mundo, como trata seus funcionários e se o trabalho que vão fazer tem algum sentido além de gerar lucro para os acionistas.

"Não quero trabalhar para uma empresa que não sabe por que existe. Quero trabalhar para uma empresa que está tentando resolver um problema real."

O choque com as empresas tradicionais

Muitas empresas brasileiras ainda não entenderam — ou não querem entender — essa mudança. O modelo de gestão predominante nas grandes corporações brasileiras foi desenhado para uma força de trabalho que valorizava estabilidade, hierarquia e progressão de carreira linear. Esse modelo não funciona para a geração Z.

O resultado é um choque de expectativas que se manifesta em alta rotatividade, baixo engajamento e dificuldade crescente para preencher vagas. Segundo dados do LinkedIn, a taxa de rotatividade entre profissionais de 18 a 25 anos no Brasil aumentou 43% entre 2020 e 2024. As empresas que conseguem reter esses jovens são, em geral, as que adaptaram sua cultura organizacional — não as que tentaram adaptar os jovens à sua cultura.

O empreendedorismo como alternativa

Para muitos jovens da geração Z, a resposta para a frustração com o mercado de trabalho formal é o empreendedorismo. O Brasil tem hoje mais de 1,5 milhão de MEIs (Microempreendedores Individuais) com menos de 30 anos — um número que cresceu 67% em cinco anos.

Criadores de conteúdo, freelancers, pequenos negócios digitais — a geração Z está construindo formas alternativas de trabalho que se encaixam em seus valores e estilo de vida. Nem todas essas iniciativas são bem-sucedidas, e a precariedade do trabalho informal é um risco real. Mas para muitos jovens, a incerteza do empreendedorismo é preferível à certeza de um emprego que os faz sentir presos.

O que as empresas precisam fazer

Especialistas em gestão de pessoas têm uma lista de recomendações para empresas que querem atrair e reter a geração Z. Flexibilidade de horário e local de trabalho é o ponto de partida — não um diferencial, mas uma exigência básica. Transparência sobre a cultura organizacional, oportunidades de desenvolvimento rápido e lideranças que tratam os jovens como adultos capazes de tomar decisões são outros fatores críticos.

Mas, acima de tudo, as empresas precisam ter um propósito claro e genuíno. A geração Z cresceu com acesso a informação suficiente para identificar quando uma empresa está fazendo greenwashing, quando o discurso de diversidade não se reflete nas práticas, quando os valores declarados não correspondem ao comportamento real. Autenticidade não é opcional — é o preço de entrada.